As recentes alegações de assédio sexual contra figuras públicas de Hollywood, causaram um efeito cascata em todo o mundo. A hashtag #metoo (#eutambém) nas mídias sociais uniu não apenas vítimas femininas, mas também muitos apoiadores do sexo masculino. No Egito, no entanto, o assédio sexual não se limita ao local de trabalho, mas costuma acontecer nas ruas, sendo até considerado motivo de orgulho.

Desde a minha adolescência eu ouço falar sobre assédio sexual cometido por homens nas ruas ou em lojas do Cairo. Naquela época, início e meados dos anos 90, não passavam de assobios, sorrisos maliciosos ou insinuações. Porém, com o passar do tempo, a forma como os “predadores” começaram a assediar as mulheres mudou. Passaram a ser ataques mais libidinosos e molestadores, expondo os órgãos genitais e tocando ou bolinando as mulheres nas ruas.

Quando garotas, costumávamos compartilhar essas histórias na privacidade de nossos quartos. Tínhamos muito medo de contar aos nossos pais. As mulheres não falavam sobre assédio publicamente porque não havia como provar, e além do mais, elas sempre seriam consideradas culpadas.

A crescente onda de assédio atingiu o pico mais alto quando o caso de uma jovem cineasta chamada Noha El Ostaz chegou ao noticiário. Depois de ela ter sido bolinada por um motorista de caminhão que acelerou e a arrastou até que caísse, ela exigiu que o homem fosse levado à delegacia apesar dos clamores públicos para soltá-lo. Ela sofreu longos processos judiciais, ouviu perguntas ofensivas do promotor público, foi tratada com descrédito e recebeu acusações, até que finalmente ganhou o caso e o assediador recebeu uma sentença de três anos de prisão.

No entanto, o assédio nas ruas continua… Está profundamente enraizado na vida dos agressores.

PROTEGENDO AS RUAS

Seguro hoje, mas as ruas do Cairo podem ser perigosas para as mulheres.
Seguro hoje, mas as ruas do Cairo podem ser perigosas para as mulheres.

A maioria dos homens que assedia mulheres nas ruas tem um status econômico baixo e passa a maior parte do tempo nas ruas, trabalhando como funcionários de cafeterias, mecânicos, construtores, trabalhadores e motoristas de ônibus públicos. Eles encaram a rua como seu domínio, e as mulheres que nela passam devem estar preparadas para ouvir qualquer comentário que lhes venha à mente. Eles não demonstram respeito por mulher alguma, seja idosa ou jovem. Até as mulheres que usam véu recebem comentários jocosos sobre sua roupa, e eles ficam imitando suas expressões de medo, até explodirem em risadas.

Os homens assediam as mulheres não somente quando estão andando na rua mas, também, quando estão dirigindo. Os assediadores podem puxar o cabelo de uma mulher, esticar as mãos através das janelas para tocá-las ou fazer uma ultrapassagem acentuada para assustá-las. Recentemente, um homem começou a, propositalmente, dirigir muito devagar, e com isso impediu que eu entrasse na rua em que ia virar. Ele fez isso apesar de eu e dos outros motoristas que estavam atrás de mim termos buzinado direto. No final, ele deu um olhar malicioso e jogou um beijo em minha direção.

Agora, enquanto a comunidade discute abertamente o comportamento abusivo em relação às mulheres, o assunto está recebendo a atenção da mídia. Um filme chamado 678, representando o número de um ônibus, mostra a dura realidade das experiências femininas de assédio sexual nos transportes públicos.

O filme foi aclamado publicamente mas, também, foi criticado por mostrar as formas que as mulheres estão tomando para se defender, usando alfinetes para furar a virilha dos atacantes. O filme também não conseguiu passar uma imagem completa do problema. Sim, ele mostrou as desvantagens que as mulheres enfrentam quando “vão contra a corrente”, mas enfatizou que o assédio é um problema causado pela repressão sexual que os homens enfrentam em nossa cultura. Isso quase os desculpa e ignora o fato de que o assédio também é relativo a poder, em sua forma de humilhar, dominar ou intimidar a vítima.

A verdade é que o assédio sexual entre homens egípcios, não se restringe à repressão sexual. É uma agressão absoluta contra as mulheres porque sabe-se que não há punição.

No Egito, no início dos anos 1970, os homens não ousavam incomodar as mulheres porque havia ordens diretas do presidente Nasser de que se alguém fosse pego seduzindo uma mulher seria denunciado à polícia e teria sua cabeça raspada. Aquela seria a marca evidente de que aquele homem era um assediador. As comunidades estavam seguras na época, e sempre que um homem via a irmã de um amigo sendo assediada, ele rapidamente intervinha protegendo-a e envergonhando o ofensor.

CÚMPLICE

Agora, não há interesse público e, algumas vezes, o público tem até consentido. Ninguém se atreve a repelir um assediador ou a proteger uma mulher que esteja sendo vítima de assédio. O número de estupros em grupo, cometidos por jovens, aumentou consideravelmente durante a Primavera Árabe. Uma famosa apresentadora de televisão americana, uma atriz egípcia, algumas jornalistas e outras mulheres foram atacadas. Um policial foi espancado na praça Tahrir quando intervinha para salvar uma apresentadora de TV de um grupo de homens que se reunia para estuprá-la.

Uma pesquisa recente da Thomson Reuters apontou o Cairo como a cidade mais perigosa para o assédio sexual. Eu acho que não é bem isso. Os homens do Egito não são mais culpados de assediar as mulheres do que os homens de outros lugares do mundo. Ocorre que as taxas são maiores, porque a grande população do Egito está concentrada em uma pequena área.

O assédio, também, não é exclusivo dos países mais pobres. Fui assediada três vezes nos Estados Unidos no intervalo de um mês: uma vez na rua e duas vezes em uma loja. O assédio é um subproduto da negligência e da falta de fiscalização da polícia.

O Metrô do Cairo oferece vagões exclusivos para mulheres, para que elas possam viajar com segurança.
O Metrô do Cairo oferece vagões exclusivos para mulheres, para que elas possam viajar com segurança.

A instabilidade política, a ausência de uma unidade nacional e comunitária e a discriminação contra o público pelas autoridades, até o ponto do desprezo, levam a um espírito de negligência. A polícia não pode ser incomodada por problemas públicos, a menos que receba ordens de autoridades superiores. Isso leva o público a fazer as suas próprias regras para as ruas.

Uma vez que a força policial no Egito está mais interessada em prender gangues criminosas, usuários de drogas e portadores de armas, os cidadãos comuns têm muito medo de ajudar uma vítima de agressão. É muito mais fácil culpá-la pelo modo como está vestida, por estar sozinha na rua ou por estar fora de casa em horário inadequado.

Entretanto, as mulheres do Egito não aceitam essa situação e continuam lutando contra o assédio, embora não haja muito apoio do governo. Em 2010, ativistas femininas lançaram o HarassMap (Mapa do assédio) um projeto on-line que convida as mulheres a relatarem experiências de assédio e, depois de verificá-las, colocam-nas em um mapa do Google no Egito, mostrando às mulheres os hotspots (os pontos a serem evitados). Voluntários visitam essas áreas, conversam com os trabalhadores locais e investem tempo ali para torná-las zonas livres de assédio. O local também foi palco de projetos de grupos de jovens que andavam nas ruas durante os feriados e festas para pegar assediadores  chamados de Catch a Harasser (Pega assediador).

Apesar de muitas tentativas para tratar dessa questão, uma coisa ainda está faltando: medidas eficazes das autoridades para que as ruas do Egito se tornem realmente seguras para as mulheres.


Capacitar, empoderar as mulheres e demonstrar aos telespectadores, tanto masculinos quanto femininos, o valor que Deus dá a elas, são duas prioridades da SAT-7. Programas como I Want to Talk (Eu Quero Falar), Needle and New Thread (Agulha e Linha Nova), Start from Here (Começando Daqui) focam em atitudes e comportamentos que rebaixam ou prejudicam as mulheres e oferecem conselhos construtivos e modelos comportamentais positivos.


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Mary Joseph: Equipe de Comunicações SAT-7

A Mary é correspondente no Cairo, Egito. Ela também morou na Austrália e trabalhou como jornalista em mídia secular e religiosa. Suas paixões incluem ler, escrever, viajar e fotografar.